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O Super Tédio
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Sociedade
09/09/2021

Num estudo recente, certos participantes foram colocados numa sala durante 6 a 15 minutos. Na sala, não se encontrava nada mais para além de um botão. Era do conhecimento de todos, que assim que pressionado iriam receber um choque. Foram então convidados a divertir-se com os seus próprios pensamentos e se assim entendessem poderiam pressionar o botão de choque. No final, os resultados foram que 25% das mulheres e 67% dos homens deram um choque neles próprios, apesar de os investigadores terem dito anteriormente aos participantes que lhes pagariam caso evitassem o choque.

Aparentemente, os participantes preferiram sentir dor física a ficarem entediados, a não ter nada para mantê-los ocupados a não ser os seus próprios pensamentos. Mas não são os únicos. Uma grande percentagem de adultos relatam participar em alguma atividade prazerosa no seu quotidiano, mas apenas uma pequena percentagem afirma passar algum tempo a relaxar e a pensar, porque isso aparentemente é entediante e ficar entediado é desagradável.

Então, o que é o tédio? Bem, ao contrário da crença popular, não é quando não se tem absolutamente nada para fazer, mas quando nenhuma das opções disponíveis é atraente para ser realizada. O tédio é caracterizado por falta de concentração, inquietação, mas também por um sentimento de letargia. Agora há mais maneiras do que nunca de evitar o tédio. Muitas pessoas pegam nos telefones para afastar o tédio, com o Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat, YouTube, Reddit para não mencionar a necessidade por notícias enquanto se espera numa fila, no café, parado no trânsito, ou seja, quando se está a realizar uma atividade na qual estamos à “espera” do tempo e não o contrário.

Mas perde-se alguma coisa ao evitar o tédio? A investigação científica diz que sim, e o que se perde é importante. Quando se está entediado, a mente vagueia e isso é natural. O estado de tédio é aquele em que a atenção não está focada em nada particular. Investigadores mostraram que essa mente errante é útil para a criatividade. Num estudo recente deram aos participantes uma tarefa aborrecida e aleatória. A mais entediante: ler a lista telefônica. Então, pediu-se aos participantes para serem criativos durante esse processo para pensar no máximo de usos possíveis para um copo plástico Os mais entediados na leitura da lista telefônica, geraram soluções mais criativas em comparação com os grupos de participantes menos entediados.

 A principal razão pela qual muitos investigadores suspeitam que sentimos tédio é porque ele indica o nosso estado atual, isto é, se estamos entediados, sabemos que algo não está a funcionar ou a cativar o interesse numa determinada situação. Portanto, o paradoxo do tédio é que ele faz com que o cansaço, a lentidão e o desinteresse tomem conta do estado de espírito. Mas pode realmente ser importante para proporcionar ações e mudanças positivas. Na ausência de tédio, pode-se ficar preso em situações não satisfatórias e perde-se muitas experiências emocionais, cognitivas e socialmente gratificantes. O tédio é um aviso de que não se está a fazer o que se quer fazer e um empurrão que pode ser a motivação para mudar metas e objetivos.

Estudos também mostraram que o tédio pode tornar pessoas mais altruístas, talvez o senso agudo de falta de propósito que se sente quando existe tédio fica fora de controle e faz com que se questione o que se está a fazer com a vida como um todo. Mas o lado positivo é que isso pode levar a pensar nos outros e no que se pode fazer para ajudá-los. E isso fornece um propósito imediato e concreto para uma vida que pode, momentaneamente, parecer que está sem propósito. Estudos projetados para induzir o tédio mostraram que os participantes mais entediados são mais propensos a doar para caridade, ou para doar sangue.

Então, aparentemente, a oportunidade de fazer algo com sentido, mesmo que desagradável, ​​tem mais valor se existir tédio do que se não existir. Da mesma forma, esse estado sem objetivo parece cultivar pensamentos sobre o que se quer fazer com a vida. Pensar na vida como uma história e considerar qual o caminho que ela deve seguir.Isto chama-se planeamento autobiográfico.  Quando dadas tarefas que usam apenas uma fração da capacidade mental, os participantes do estudo frequentemente pensavam no futuro e nos planos que tinham para ele. Dessa forma, ficar entediado é essencial para estabelecer metas. Se o cérebro está sempre consumido com outros estímulos, raramente haverá ponderação sobre o quadro geral, do estabelecimento de metas de longo prazo e a reflexão de como alcançá-las.

Nas alturas em que se “espera” pelo tempo, a decisão de pegar no telefone por alguns segundos ou minutos, ou apenas ficar entediado e divagar nos pensamentos, parece ser uma decisão insignificante mas na realidade não o é. Se não se pensar muito, a ação óbvia é ver o que há de novo nas redes sociais e ao tomar essa decisão, há um aliviar do sentimento de tédio, mas provavelmente também o tornará menos criativo e menos altruísta, menos propenso a avaliar o próprio estado atual e menos propenso a estabelecer metas para o futuro.

Em suma, podemos ser o exemplo do mundo real em que se auto inflige um “choque” para evitar o desprazer do tédio mas podemos ser a excepção em que a dor pode ir muito mais fundo, à própria natureza de quem somos e no que nos podemos tornar, portanto deve-se pensar com cuidado antes de pressionar esse “botão”.

 

Referências: https://bit.ly/3Ab1ld2;https://bit.ly/3nnYGJP;https://bit.ly/3ng7dOP
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