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A importância da infância
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Sociedade
27/01/2021

Talvez não haja maior prioridade na infância do que adquirir uma educação, pois é nos primeiros anos de existência que há um insaciado desejo de aprender as lições e adquirir a experiência que ajudará a contornar com sucesso as armadilhas da vida adulta. Ao estudar muito e com inteligência, a probabilidade de evitar uma meia-idade de confusão, resignação, arrependimento e tristeza é enorme. Supostamente, a chave para uma vida adulta de sucesso está na educação infantil e é por esta razão que se envia as crianças cansadas ao mundo nas manhãs escuras de inverno com mochilas cheias para passarem o dia a estudar os mais diversos dogmas. Mas há um detalhe nesta abordagem que é pertinente perceber, é que o único assunto que quase certamente tem mais capacidade de ensinar e ajudar a contornar os perigos adultos e mostrar o caminho da realização, o assunto que muito mais do que qualquer outro tem o poder decisivo para nos libertar, este assunto não é ensinado em qualquer escola ou faculdade ou em qualquer lugar do planeta. Outra ironia é que este assunto que não é estudado é aquele que se vive todos os dias nos primeiros anos de vida, que faz parte da experiência palpável de tudo o que acontece ao redor. O assunto que falta é a própria infância.

Pode-se resumir a sua importância da seguinte forma: as chances de uma vida adulta plena dependem esmagadoramente do conhecimento e envolvimento com a natureza da própria infância, pois é neste período que a parte dominante da identidade adulta é moldada e as expectativas, respostas e características definidas. Até aos dezoito anos, em média,  passam cerca de 25.000 horas, nas quais se tem a companhia dos progenitores, período que acaba por determinar como se formulam os pensamentos sobre os relacionamentos, o sexo, como se encara o trabalho, a ambição e o sucesso, a autoavaliação que pode ser positiva ou negativa, o que se deve assumir de estranhos e amigos e quanta felicidade se acredita merecer e plausivelmente atingir.

As expectativas que se formam nesses anos sobre quem se é, como os relacionamentos podem ser e o que o mundo pode querer dar são marcadas por uma gama do que se poderia denominar "distorções" - desfasamentos da realidade e um ideal de saúde mental e maturidade. Algumas ou muitas coisas podem ter acontecido de uma forma um pouco errada ou até terem seguido em direções questionáveis - provocando medo e intimidação em algumas situações mais do que o esperado. Pode-se, por exemplo, adquirir a sensação de que se precisa mentir sobre os próprios interesses para haver uma sensação de integração e aceitação. Pode-se ficar com a impressão de que o sucesso incita a rivalidade de um dos familiares. Ou que se precisa sempre de ser engraçado e alegre para animar um adulto depressivo que se adora mas pelo qual se teme.

A partir das experiências iniciais,  adquirem-se expectativas, "roteiros" internos e padrões de comportamento que representam o inconsciente na idade adulta. Nessa altura da vida, certas pessoas-chave não encararam os comportamentos com seriedade: no futuro é uma tendência acreditar inconscientemente que ninguém o faz. A rotina de ajudar um adulto no qual se depende aumenta a probabilidade de que no futuro exista uma necessidade para ajudar todos aqueles que se ama inconscientemente. A admiração de um pai que nunca se importou pode provocar que repetidamente e de uma forma inconsciente as relações futuras sejam com pessoas distantes e indiferentes.

Um dos problemas da infância é que geralmente esta é cercada por uma implicação enganosa de que pode ter sido sã. O que se passa na cozinha, no carro, nas férias e no quarto pode parecer indescritível. Por muito tempo, não existe um termo de comparação. É apenas a realidade que se enxerga, ao invés de uma versão muito peculiar e desesperadamente prejudicial dela, cheia de inclinações únicas e perigos absolutos. Por muitos anos, pode parecer quase normal que um pai fique afundado na cadeira num desespero silencioso, que a mãe esteja sempre a chorar ou que tenha sido rotulada de indigna. Pode parecer normal que todo o desafio seja uma catástrofe ou que toda esperança seja destruída pelo cinismo. Não há nada que alerte sobre a estranheza de uma criança ter que animar um pai por causa das dificuldades do seu relacionamento. A última coisa que os pais mais estranhos vão dizer é que eles são estranhos; os adultos mais esquisitos investem mais tempo em pensar em si mesmos e em serem conhecidos pelos outros como normais. Essa tendência para uma normalização impensada é agravada pelo desejo natural dos filhos pensarem bem dos pais, mesmo ao custo de cuidar dos próprios interesses. É sempre - estranhamente - tendencioso que uma criança se considere indigna e incapaz do que reconhecer os próprios pais como instáveis ​​e injustos.

A herança de uma infância difícil espalha-se por todos os cantos da vida adulta. Por décadas, pode parecer que a infelicidade e a tristeza são a norma. Pode demorar até que uma pessoa se torne profundamente adulta, pode ter já prejudicado a carreira substancialmente ou passado por uma série de relacionamentos frustrantes, até que possa tornar-se capaz de pensar sobre a conexão entre o que aconteceu no passado e de como vive como adulta. Lentamente, pode-se perceber a ligação que o hábito de tentar mudar os parceiros têm para com a interação com uma mãe problemática. Depois de muitas horas de discussão, pode-se perceber que não há necessidade de conflito entre ser bem-sucedido e ser uma boa pessoa - ao contrário do que um pai desapontado possa ter imputado.

A premissa presente na sociedade moderna é que o sucesso é possível idealmente quando compreendemos as leis do universo e a história da humanidade. Mas, para prosperar adequadamente, também é preciso saber algo muito mais perto de ‘casa’. Sem uma compreensão adequada da infância, não importa quantas fortunas se tenha, quão estelar seja a própria reputação ou a externa alegria das próprias famílias, a condenação é afundar nas próprias complexidades psicológicas; provavelmente pela ansiedade, pela falta de confiança, medo, paranóia, raiva e auto-aversão, esta herança generalizada de passados distorcidos e mal compreendidos.

Os primeiros anos de vida guardam os segredos das próprias identidades. A única matéria que precisa ser destacada acima de tudo é aquela que ainda não foi sinalizada pelo sistema escolar, chamada 'a minha infância', e o sinal de formação neste tópico é quando se pode saber e pensar não defensivamente sobre a pouca loucura que se possa ter (em pequenos e grandes), e o que exatamente no passado distante a possa ter originado.

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