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“ANJOS OU DEMÓNIOS: ONDE NOS SITUAMOS?” POR ANA CATARINA CORREIA
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Sociedade
21/04/2022

Nota: o que vais ouvir, ler ou ver foi produzido pela equipa do Fumaça, um projecto de jornalismo independente, e foi originalmente publicado em fumaca.pt.)

 

Todos vivemos num corpo. Arrisco dizer, não há coisa mais imediata que nos represente (quer a nós próprios, quer aos outros e ao mundo). Um corpo que se espera saudável, ágil, jovem, imbuído de feminilidade ou masculinidade e, não menos relevante, onde estejam presentes sensualidade e sexualidade. 

Estas são, entre outras, as expectativas sociais mais generalizadas sobre os corpos desejáveis – uma espécie de “norma” que, de forma mais ou menos consciente, está presente. E aliada a elas está uma de grande relevância: o corpo normal, capaz. 

Pensemos nas pessoas com deficiência.

Jorge Cardoso, psicólogo clínico e sexólogo, enumera um conjunto de mitos sobre a sexualidade. “São assexuados ou não existe sequer o desejo sexual; mesmo que possuam desejo sexual, são disfuncionais; são malignamente libidinosos (“tarados sexuais”); masturbadores compulsivos; coitados, não podem ter filhos… E ainda bem que assim é senão como é que poderiam fazer face às necessidades dos seus descendentes?; são bons amigos… Não há razões para ter receio de qualquer avanço sexual; não é aconselhável terem-se conversas com conteúdos sexuais para que não se apercebam daquilo que “estão a perder”; um relacionamento afetivo sexual entre uma pessoa com deficiência e alguém sem deficiência deve-se, com certeza, a interesses materiais ou, numa perspetiva mais “dócil”, reflete uma atitude de extremo altruísmo por parte da pessoa sem deficiência; a união entre pessoas com deficiência representa a única escolha possível – ‘quem mais o/a poderia querer?’”

Porque existem estes mitos e porque estão tão impregnados social e culturalmente? 

Enquanto mulher com deficiência e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência acredito que há um conjunto de razões para este “estado das coisas”. 

Encontrar parceiros/as sexuais implica várias concretizações quotidianas: frequentar o espaço público; conhecer pessoas novas e ter momentos de diálogo; ter consciência do nosso nível de adultez; frequentar diversos eventos sociais; possuir competências socioemocionais como autoestima e autoconfiança, entre outras; viver experiências amorosas de fracasso para que possamos aprender com elas; possuir formas comunicativas que captem a atenção do outro de forma positiva; zelar pela autoimagem de forma frequente; estar predisposto a arriscar; ter um nível considerável de autoconsciência corporal; possuir uma consciência de identidade (quem sou e como sou, por exemplo) positiva e em que se considere que “vale a pena” conhecer ou explorar; ter liberdade de escolha de decisão, entre outros. 

Já pensaste como muitas pessoas com deficiência se posicionam em relação a tudo isto? Penso em concreto nas que possuem incapacidades mais significativas e visíveis como as de natureza física, intelectual e até mesmo sensorial.

Repara: frequentar o espaço público de forma livre e autónoma é muitas vezes tortuoso (para não dizer impossível). Manusear e cuidar do próprio corpo é uma tarefa que depende de terceiros e, portanto, palavras como “incapaz”, “disfuncional” e “dependente” saltam à vista. Frequentemente, estamos arredados em ligações de dependência tão opressivas – com familiares e cuidadores, por exemplo – que as nossas escolhas e vontades mais elementares nem sequer são consideradas. Porque somos o elo mais fraco e temos simplesmente que nos sujeitar a vontades e escolhas alheias. Afinal de contas, já somos um “pesado fardo”. 

Onde caberá, então, a dimensão da sexualidade? Situa-se, erradamente, na dualidade de “eternos anjos inocentes” ou numa espécie de “demónios sexuais” que não controlam a líbido e são profundamente carentes. É completamente desconsiderada porque somos eternas crianças.

O abandono desta dualidade passará, necessariamente, por transformações sociais e culturais muito profundas em relação à deficiência. Deve deixar de se reduzir a uma dimensão médica e de diagnóstico – profundamente negativa – e ser vista como algo que faz parte da identidade da pessoa; olhar para as pessoas enquanto sujeitos dignos de direitos e que são parte positiva de uma sociedade diversa; questionar as vivências de uma sexualidade altamente héteronormativa; desafiar os padrões de beleza e de sensualidade pré-estabelecidos. Creio que desatando alguns destes “nós”, as pessoas com deficiência também se colocarão num patamar menos estigmatizante e onde se achem dignas de viver de forma plena em todas as dimensões da vida, sem exceções. 

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