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Qual o nosso propósito, como sociedade? 
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Sociedade
10/01/2021

Parece-me que dia após dia, a sociedade se está a tornar cada vez mais insocial. Os valores que nos regiam como sociedade, começam a ficar em xeque, perante uma nova vida que se apresenta distante do que outrora considerávamos normal. A nossa evolução, enquanto sociedade, parece agora evoluir única e exclusivamente para servir caprichos humanos, sem que na verdade se entenda que muitos dos nossos caprichos nos afastam da nossa verdadeira forma de ser. Criamos um novo mundo, um mundo em que nos sentimos mais confortáveis. Criamos um mundo de servidão, onde usamos a tecnologia como satisfação. Nunca foi tão fácil estar tão perto uns dos outros mas na verdade nunca tivemos tão longe. Na verdade, este novo mundo social em que vivemos acabou por distorcer a nossa percepção de realidade e neste preciso momento aquilo que em tempos era normal, tornou-se agora anormal.

 

A tecnologia e a evolução humana

O processo evolutivo, enquanto sociedade, tem ou deveria ter como prioridade máxima, o desenvolvimento e o conhecimento das nossas capacidades e aptidões ao mundo em que vivemos. Como espécie, ou como sociedade deveríamos aprender e conhecer o máximo possível sobre nós e sobre o meio em que vivemos, de forma a que a nossa adaptação ao mundo e as nossas condições de vida, sejam cada vez melhores.

Uma das grandes conquistas, que sem dúvida contribui para a nossa evolução, foi de facto a tecnologia. Conseguimos não só transferir tarefas difíceis do dia-a-dia, como também o nosso próprio raciocínio. De forma a desenvolver, ou melhor, acelerar o nosso raciocínio, inventamos máquinas que nos ajudam a processar e a desenvolver cálculos de forma muito mais rápida. Um bom exemplo disso é a calculadora. Foi sem dúvida uma das invenções mais importantes, porque não só nos permitiu chegar a resultados de forma mais rápida como também nos permitiu focar ainda mais no horizonte do desconhecido. Esta, sem dúvida é uma conquista positiva, pois teve o seu propósito. O leque do conhecimento humano não só cresceu como acelerou. Infelizmente e como em tudo na vida, tem também o seu lado negativo. O ser humano transferiu o seu raciocínio para a máquina e ficou, sem se aperceber, refém da tecnologia. Hoje, são raras as pessoas que conseguem fazer cálculos avançados sem recorrer a uma calculadora, na verdade a maior parte da sociedade não consegue fazer contas percentuais simples e sejamos sinceros, a vida sem esta maravilhosa conquista parece ser já impossível.

É certo e sabido que as nossas conquistas não ficaram por aí. Chegamos a uma era em que a transferência das acções humanas para a tecnologia é quase total. Seja através do processamento de computadores, pela robótica ou até mesmo pela inteligência artificial. O ser humano ganhou mais do que nunca um poderoso aliado na sua evolução. Neste momento conseguimos "passar" as tarefas de maior trabalho para a tecnologia, o que nos permite, como nunca, o foco na nossa busca pelo desconhecido.

Podemos mesmo dizer, que esta nova era tecnológica, deu origem a um novo submundo que tem como objectivo a subserviência do mundo real, mas será que este primeiro mundo ainda mantém o foco e ainda se mantém realmente em primeiro lugar?

 

O paradigma de dois mundos

Vivemos de tal forma esta evolução tecnológica, que por vezes nos esquecemos que este novo e-mundo, foi criado, único e exclusivamente, com o propósito de nos servir no mundo real. Um mundo que foi idealizado para nos auxiliar na descoberta do primeiro mundo mas que rapidamente, se apresentou como um mundo de oportunidades e nos fez perder o nosso verdadeiro foco. O foco, foi de tal forma perdido, que já não nos empolgamos pela descoberta do mundo real, mas sim, pela criação de novos mundos dentro deste mundo tecnológico, como por exemplo a realidade aumentada / virtual, second life, etc.

A nossa própria comunicação mudou, tornou-se fria, passamos a comunicar com uma tela, em rede. Até as emoções estão a ser alvo de grande mudança, talvez pela quantidade incessante de informação que é processada a cada instante. É de tal forma incessante, que sentimos uma necessidade inquietante de participar e partilhar um pouco daquilo que somos, mas na maior parte das vezes e talvez pela acentuada vivencia neste novo e-mundo, não conseguimos encontrar a nossa própria identidade.

Talvez por termos passado o raciocínio chave para uma máquina, estejamos agora a perder as nossas capacidades intelectuais e humanas. Afinal, não sei o que seria destas novas gerações se a tecnologia desaparecesse... Seriamos nós ainda capazes de nos readaptar ao mundo real com o conhecimento que se tem vindo a acumular neste mundo virtual? Seremos ainda capazes de nos desenvolver em função do primeiro mundo ou estaremos de tal forma dependentes do e-mundo que não mais consigamos fazer essa distinção e separação?

 

Propósito

Sem dúvida, me parece que o nosso foco e o nosso propósito, como sociedade, está cada vez mais virados para o e-mundo do que propriamente para o mundo real. Os nossos objectivos sociais, são cada vez mais demarcados pela autopromoção e pela superficialidade. A evolução humana, está cada vez mais afastada de toda e qualquer uma espécie planetária. O nosso corpo moldasse à própria tecnologia e não ao nosso meio. Deformações ou evoluções? O nosso polegar, por exemplo, ou certas regiões do cérebro já não são o mesmo devido aos nossos hábitos tecnológicos, mas serão tais transformações realmente necessárias ao nosso mundo real? Não estaremos, nós humanos, de tal forma entranhados no virtual, que na verdade, nos tenhamos esquecido daquilo que é realmente natural? A meu ver, a própria evolução humana está condenada à perda do foco.

A sociedade, precisa mais do que nunca de ser lembrada do que é habitável. Precisamos de acordar, sob pena de passarmos mais tempo agarrados a este novo e-mundo do que propriamente ao mundo em que respiramos. Precisamos de saber balancear e direcionar a nossa evolução tecnológica ao nosso verdadeiro propósito.

A evolução humana.

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